domingo, 4 de maio de 2014

ECONOMIA - HERANÇA PESADA

O ano de 2015 será difícil qualquer que seja o governo. O pior erro do próximo governante será adiar os ajustes que terão de ser feitos. Há uma pilha de contas pesadas para o próximo ano. Na energia, o consumidor começará a pagar pelas extravagâncias dos dois últimos anos, as contas públicas terão que ser reequilibradas, a inflação reprimida terá que ser corrigida.
As assessorias de todos os candidatos sabem disso, mas a da presidente Dilma continuará negando a necessidade das correções, porque será o mesmo que concordar com os criticas da oposição. Tentará esconder ou dourar a pílula. 
Todos sabem que algo terá que ser feito para corrigir a herança dos últimos anos, mas a equipe do atual governo ainda está convencida dos méritos de alguns dos seus despropósitos. O perigo será adiar o enfrentamento dos problemas porque eles ficarão mais pesados.
A energia virou uma barafunda. Há passivos para todos os lados pelas confusas regras do modelo. O empréstimo assinado na sexta-feira de R$ 11,2 bilhões, será pago até outubro de 2017, com o  custo de CDI e mais 19% ao ano. O que significa que a conta de luz será de amargar por pelo esse período, os consumidores pagarão a cobertura dos custos normais do sistema, partes desse empréstimo maluco, outros aumentos provocados pelo populismo tarifário de 2013 e os desiquilíbrios provocados pela má gestão do setor. Estava previsto para ser iniciado em 2014 o funcionamento de bandeiras tarifários, que elevariam a conta quando houvesse maior uso de energia das térmicas. Mas o governo vetou a sua entrada por ser ano eleitoral. Isso elevou mais a conta para o futuro.
O combustível vai ser reajustado para ter alguma paridade com os preços internacionais. A presidente da Petrobras, Graça Foster, tem dito que é fundamental buscar essa convergência. A falta dela está produzindo um prejuízo que tem cálculos diversos, conforme a taxa de câmbio ou a forma de projeção, mas ninguém duvida que é um dos problemas da Petrobras, com reflexos nas contas externas.
A inflação entrará no ano que vem no limite máximo permitido pela política de metas de inflação e ainda com essa pressão de preços administrados, que terá que ser repassada. Isso fará subir os índices.
Quem estiver assumindo o governo gastará o seu período de lua de mel para fazer esse primeiro ajuste na casa, que pressionará a inflação, vai chocalhar o setor elétrico e restaurar o realismo das contas públicas. Se o eleito for a atual governante, ela terá que ter uma boa explicação para ter adiado o enfrentamento dos problemas para depois das eleições. Em 1999, o governo FHC pagou um preço amargo por ter deixado para depois das urnas a desvalorização cambial. Sua popularidade despencou e mesmo após subir, jamais voltou aos níveis em que estava ao ser reeleito em primeiro turno.
Há ainda uma necessidade de revisão do estilo de gestão pública em inúmeras áreas.
A estarrecedora notícia dada esta semana pelo colunista José Casado se transformou em reportagem feitas pela televisão e jornal exibido  flagrantes do indispensável, o racionamento de vacinas nos postos de saúde.
Para quem não leu, vale a pena recuperar a coluna publicada na terça-feira. Até a vacina tríplice está sendo distribuída de forma racionada. Problemas que o Brasil pensava que tinham superado voltam assombrar. 
Há ajustes inevitáveis em alguns gastos. O déficit da previdência foi subestimado este ano, mas tem aumentado. um dos problemas é o da pensão por morte. Em outros países, a viúva ou viúvo, recebe a pensão parcial. É proporcional a idade que tem e ao fato de ter ou não filho. Aqui é integral, mesmo que seja um casamento de uma pessoa idosa com outra super jovem, sem filhos, e com capacidade de se sustentar. Outro dos mistérios é a conta de seguro-desemprego com crescimento explosivo em época de baixa taxa de desocupação. 
Vale torcer por algumas boas notícias, como a retomada da economia mundial, uma boa temporada de chuvas que recupere o nível dos reservatórios e uma aceleração do PIB que aumente a arrecadação.
Um novo período de de governo é sempre animador, e a pessoa que assume, ou reassume, chega com o poder entregue pelas urnas. Mas não terá tempo de comemorar. Terá que fazer ajustes para garantir a prosperidade nos anos seguintes. 

FONTE: JORNAL "O CORREIO".
COLABORADORA E ECONOMISTA: MIRIAM LEITÃO

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